Trocar a numeração da rede sem que o cliente perceba

A internet está trocando o modelo de endereço. Quem faz a troca começando pelo cliente descobre os defeitos com o telefone do suporte tocando. A ordem que deixa o cliente por último.

Numa segunda-feira de manhã, o gerente de um provedor do interior ouve a mesma pergunta do técnico pela terceira vez no ano. "Quando a gente liga a numeração nova?" A resposta costuma ser "depois da alta temporada", e a alta temporada nunca acaba. O medo tem motivo. Quem tentou ligar tudo de uma vez passou a semana com o telefone do suporte tocando.

O que está sendo trocado

A internet funciona com endereços, como o correio. O modelo antigo de endereço, o IPv4, acabou; já não existem números novos para distribuir. O modelo novo, o IPv6, tem endereço de sobra, mas precisa ser ligado na rede do provedor e no roteador da casa do cliente. Durante a transição, as duas numerações convivem no mesmo cabo, como um prédio que recebe carta pelo endereço antigo e pelo novo. Esse arranjo se chama dual stack e é o caminho normal da transição no mundo inteiro.

A troca é como refazer a fiação de um prédio

Pense em trocar a fiação elétrica de um prédio com os moradores dentro. Ninguém começa pelos apartamentos. Começa pelo quadro geral, depois pelos andares técnicos, depois pela portaria, e o morador é o último a ver o eletricista. Se o quadro geral falhar, o morador nem fica sabendo. Na rede, o cliente é o morador, e a ordem abaixo o deixa por último.

Primeiro, o plano no papel

O provedor recebe do Registro.br, o órgão que distribui endereços no Brasil, um bloco enorme de endereços. Antes de configurar qualquer equipamento, a divisão desse bloco tem de estar escrita. Uma fatia por cidade atendida, uma fatia para os equipamentos internos e uma reserva. Cada cliente recebe uma fatia fixa, grande o bastante para ele dividir a própria casa em várias redes (escritório, câmeras, visitas). Dar ao cliente uma fatia pequena demais é o erro mais caro de corrigir depois, porque obriga a redistribuir tudo.

Depois, a borda e o miolo da rede

A borda é o ponto onde a rede do provedor encosta nas operadoras maiores e no ponto de troca de tráfego. É ali que a numeração nova entra primeiro. A Castelapi confere por um observador externo se o bloco já aparece para o resto do mundo, porque o teste de dentro engana. Em seguida vêm as ligações internas entre os equipamentos. Nada disso toca o cliente, e essa é a vantagem de começar por dentro.

Nesta etapa também se registra a certidão de propriedade do bloco novo. Sem ela, outra rede pode se apresentar como dona do bloco e desviar o tráfego. O assunto tem artigo próprio aqui no blog.

A monitoração precisa enxergar a metade nova

Antes de qualquer serviço, o painel que vigia a rede precisa medir a numeração nova como mede a antiga. Isso inclui gráfico de tráfego separado por numeração, teste de alcance de fora e alarme quando a ligação com as operadoras cai. Sem esse alarme, a primeira falha da numeração nova só aparece quando o cliente liga. Cada episódio desses reforça na empresa a fama de que "o novo é instável".

Os serviços internos vão antes do cliente

O site do provedor, a área do cliente e o e-mail passam a atender também pela numeração nova. É aqui que os defeitos reais aparecem, como o firewall sem regra para o endereço novo. É melhor achá-los com a própria equipe como usuária do que com dezenas de milhares de clientes ao telefone.

Um piloto pequeno, medido por semanas

Um bairro ou um grupo de clientes conhecidos recebe a numeração nova primeiro. Durante duas a quatro semanas, medem-se três coisas. Quanto do tráfego passou a usar o caminho novo (em geral quase metade migra logo, puxada por vídeo e redes sociais). Quantos chamados esses clientes abriram. E quais roteadores de casa deram problema, porque alguns modelos precisam de atualização ou de troca.

Só então, cidade por cidade

Com o piloto medido, a ativação avança uma cidade por vez. Cada cidade tem um critério de sucesso escrito antes de começar (tráfego novo dentro do esperado, chamados estáveis) e um plano de volta igualmente escrito. Voltar atrás é desligar a numeração nova naquela cidade, e o cliente retorna ao estado anterior sem visita técnica. A Castelapi escreve esse plano de volta antes de ligar qualquer coisa, e cada cidade recebe data marcada.

Há um efeito colateral que vale dinheiro. Todo tráfego que usa a numeração nova deixa de passar pelo tradutor de endereços, o equipamento que faz vários clientes dividirem um mesmo endereço antigo. Menos tráfego nele adia por anos a compra de endereços antigos, caros e escassos; a conta está no artigo sobre o tradutor.

Se o seu caso se parece com esse, a Castelapi olha o cenário e diz o que faria, [email protected].

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